Conhecer Portugal no Inverno é algo de fantástico. Fora das cidades, fora das filas, do trânsito e dos horários.

Longe das responsabilidades, dos perpétuamente mal encarados, dos turistas, da família, dos conhecidos e dos "amigos".

Sem preços inflacionados, encenações para Inglês ver, stress, música foleira na rádio e pressas.

São Domingos, 2017.

Ps: Pensando melhor, na rádio quase só passa música foleira, independente da altura do ano, e sim seu hipsters da Radar, também se aplica a ti (ignorar para quem não é obrigado a sofre este castigo vil e cruel que é ouvir a Radar).



São 23:29 e acabei de sair de casa. Estava preparado para me ir deitar, afinal de contas é dia de semana e amanhã tenho consulta no dentista antes de pegar ao trabalho.

Mas o telefone tocou. Está na hora - disse o rapaz do outro lado com a voz envolta em antecipação nervosa. Venham cá ter e tragam os meus pais - arrematou pedindo urgência e calma ao mesmo tempo.

O relógio bate as 23:48 e recebo uma mensagem a dizer que já começou. A minha sobrinha vem a caminho.

Troca de roupa, bebe café, sai de casa com destino à maternidade. Pelo caminho apanhamos os ansiosos avós que já só pensam em fraldas e brinquedos. As inevitáveis conversas do "no meu tempo" ajudam a não adormecer.

São 19 minutos do novo dia. Chegámos á maternidade. Começa a espera.

Estranhamente a maternidade está vazia, pelo menos a sala de esperas da urgência. Apenas nós e um futuro pai que rapidamente sai mais a futura mãe ao receberem a notícia que ainda não é hoje.

Na máquina há água, mas é do Vimeiro. Enfim, quando não há escolha tudo serve.

O tempo custa a passar, não há muito para entreter. As conversas começam a esmorecer. Pego na máquina, vou tentar passar o tempo a tentar fotografar a sala. Adoro estes ambientes bucólicos. Tenho dificuldades em focar, se alguém perguntar vou dizer que é do cansaço.

Esperamos mais um pouco. Não há notícias.

Finalmente uma sms. Já nasceu. Mais nada. Primeiro a alegria, depois a preocupação. Estão as duas bem? Não há resposta.

Cai o silêncio na sala. Ninguém quer admitir preocupação, mas está escrito na cara de cada um. Uns intermináveis 37 minutos depois chega o "sim" que esperávamos. No grande esquema das coisas, a nossa espera foi insignificante, umas míseras 2 horas, mas que pareceram 2 meses.

Pouco passa das 2 da manhã quando recebemos a visita do pai, cansado, babado, com aquele ar de quem não sabe bem o que fazer a seguir. Conversa, risos piadas, preocupações. Queremos ver a criança e a mãe, mas vamos ter de esperar um dia para o conseguir.

Aos 31 minutos de dia 31 de Janeiro o mundo viu nascer Miriam (Joana) Matias. Benvinda Miriam. Sê feliz. O tio já te ensina qual é o barulho que um barco faz no rio.

Parabéns Lenka e Tiago. As melhores felicidades. Agora divirtam-se com as fraldas.


Copyright © Rui Pedro Esteves 2017 Direitos Reservados

Existem imensos lugares neste nosso canto da Europa que merecem ser conhecidos. As Minas de São Domingos é um desses lugares. Até muito recentemente só o conhecia por imagens. Felizmente tive a oportunidade de corrigir essa situação.

Quando a minha viagem às Minas se tornou conhecida, absolutamente ninguém pediu a  minha opinião sobre o que levar durante uma ida ao Portugal profundo. Não podendo deixar de responder a uma questão colocada por ninguém, eis a lista de essenciais:
  • Máquina fotográfica
  • Objectivas
  • Película / Cartões de Memória
  • Pilhas / Baterias
  • Livro / Computador, cabos adicionais, leitor de cartões
  • Roupa
  • Botas
  • Impermeável
  • Água
  • Comida
  • Elásticos
  • Saco de Plástico
  • Fita Isoladora
  • Nimed, na eventualidade do teu dentista ter feito um "excelente" trabalho na última consulta e ter ido de férias imediatamente a seguir, deixando-te pendurado até ao ano seguinte, literalmente.
  • Benuron, na eventualidade de teres ido na conversa do médico de família e tomado a vacina da gripe, que te presenteou com febre, dores no corpo e ranho que chegue para encher uma piscina olímpica

Os últimos dois foram dois companheiros incansáveis e indispensáveis na tentativa de um funcionamento quasi-normal.  Dois amigos que foram além do esperado, garantindo que a visita às minas era possível.

Ter acesso às Minas é mais simples que apanhar o metro da linha Azul em hora de ponta, difícil é decifrar as crípticas perspectivas dos locais. Passo a explicar, mas antes disso vamos voltar uns anos no passado até 2015 e ao Parque Nacional Peneda-Gerês onde, cansados depois da caminhada de 10 quilómetros (o que era muito para mim na altura, hoje seria quase impossível) feita no dia anterior, entramos num café local para um refresco. Após uns dedos de conversa um local recomenda um trilho de caminhada "muito fácil e com vistas fantásticas", De facto as vistas eram de tirar a respiração. Curiosamente o trilho também. Umas horas e quase 14 quilómetros de subidas e descidas, Sol imponente e uma queda ribanceira abaixo, lá voltamos ao ponto de partida, onde fomos recebidos com um vigoroso "só agora?" do nosso amigo local.

Voltando ao presente, perguntámos a um local se as Minas eram acessíveis a pé, ao que este responde que o acesso a pé é muito difícil e que ele não o recomenda. Vão de carro - disse o local com um tom de voz preocupado. Considerando a nossa experiência anterior com a avaliação da dificuldade 

Inicialmente ficamos algo apreensivos com este aviso. Por um lado o nosso carro citadino não é a melhor opção para aventuras todo o terreno, por outro estávamos entusiasmados por retomar os passeios na Natureza. Após considerarmos tudo isto, e sendo pessoas responsáveis, decidimos ignorar estes avisos de genuína preocupação e seguir a pé até às famosas Minas. Eis senão quando, uns meros 30 minutos depois e sem uma gota de suor vertida, lá chegamos ao nosso destino. A moral da história é que nunca devem sair para caminhar sem levar água, comida e bons temas de conversa.




Probabilidade de pneu em baixo é directamente proporcional à distancia do carro até casa multiplicada pelos planos de passeio do dia.




Faz uns anos que fui ao outro lado. Foi há menos tempo que tentei o outro lado.

Passou uma eternidade desde que nunca ouvi nada do outro lado. Parece que foi ontem a promessa de retorno. Ficará para amanhã o lamento.

No outro lado foram forjadas ilusões, pretensões daquilo que nunca esteve em cima da mesa. O tempo, também ele um outro lado, trás consigo a clarividência comprovada pela experiência e não deixa espaço para outras interpretações.

São vários e diversificados os outros lados que vamos conhecendo. Alguns físicos, outros nem tanto, alguns objectivos mas muitos nem tanto, por vezes reais por outras apenas por mim conhecidos. Tento deixar nesses outros lados os arrependimentos lá ganhos, mas nem sempre assim acontece.

Hoje sobra-me o outro lado da aldeia. Um lado ao abandono desde antes da minha presença na aldeia. Um lado que sempre lá esteve mas raramente visto. Um lado mesmo ao lado do lado por onde a minha vida passa. Uma constante da desde a minha adolescência que tem passado despercebida. Talvez o próximo outro lado me faça mudar de ponto de vista.


Encontramo-nos por lá.



No início era o verbo, depois a palavra.


Queria tanto explicar como, por vezes, é difícil juntar duas palavras, mas não consigo.


Fui, vi e adorei. Uma visita pela fábrica da 2 Corvos, uma conversa sobre o processo de fabrico de algumas das melhor cervejas produzidas em Portugal.


Era para ser uma Zine, depois não era para ser uma Zine, depois era para ser uma Zine, e saiu uma Isto não é bem uma Zine #1. O primeiro de um número incerto de volumes. Não bem uma Zine, não bem um livro, algo no meio, sem grandes preceitos ou ambições. Um tema, uma experiência. 

Isto não é bem uma Zine #1 - a insustentável leveza do Spritz, ou como recuperar a alegria de se andar perdido é uma viagem a Veneza, Itália. Como se fosse um dia na vida de, mas não sendo. Um passeio imaginário num local real, em que a história é palpável, as ruelas emanam carisma e os edifícios transpiram identidade. Vem conhecer ou relembrar uma das cidades mais emblemáticas na Europa.

a insustentável leveza do Spritz
ou como recuperar a alegria de se andar perdido
| 48 páginas
| preto e branco
| barba ao vento
| novembro 2017
| 25 exemplares
| 6€

Disponível a partir de 1 de Novembro de 2017. Reserva o teu exemplar.

Garantia que 100% dos lucros serão vocacionados para o próximo projecto Barba ao Vento.

Actualização: os exemplares a venda já esgotaram. Estarão alguns exemplares a venda na Feira do Livro de Fotografia de Lisboa.



Nem tudo foi perdido.



Olá Kodak,

Eu sou um gajo qualquer. Um gajo qualquer que durante algum tempo achou que seriamos BFFs para todo o F e mais além. Um gajo qualquer que te é absolutamente irrelevante. Um gajo qualquer que sempre te colocou em primeiro lugar, até agora.

Não estou zangado contigo, mas confesso que estou desiludido. 

Não sei se sabes, mas aqui em terras lusas um rolo de Ektar custa 9€. Se a isto adicionarmos o custo de revelação, sim sou menino e mando os rolos a cores revelar fora, a coisa sobe para 13€. Pouco mais de 1€ por imagem a 6x6. É um preço demasiado alto para brincar à lotaria dos fotogramas. Ektar era suposto ser uma das tuas melhor ofertas.

Porque me fazes isto? É porque te dou menos atenção? Ambos sabemos quem tem a culpa disso, não? Se não tivesses aumentado o custo do Tri-x tantas vezes em tão pouco tempo, não teria ido a correr para os braços da Ilford. Eu não quero esfregar sal na ferida, mas neste momento o Preto e Branco está bastante confortável no abraço da Ilford. Por enquanto somos felizes. Não vale a pena chorar por leite derramado.

E a cor?! Essa era tua. Mas tu não foste capaz de te controlar e pregaste-me estas partidas de mau gosto. Isto não se faz. É morder a mão de que te alimenta. Cuspir na sopa. Bater na avó. 

Eras o meu último bastião de cor. Quem me sobra? Fujifilm? Estes cancelam tudo sem um pingo de lealdade para com o consumidor. Film Ferrania? Estes são uns aldrabões de primeira, que 3 anos depois de ficarem com o nosso dinheiro ainda não produziram nada de película de cor. Lomo? CineStill? Lápis de Cera? Digital?

Vou ali fotografar em Preto e Branco e já volto.

Cumprimentos,

Gajo farto de receber rolos com o número do fotograma impresso na imagem.



Para os guias, Veneza é a cidade do Carnaval, de capa e máscara. Para os turistas é uma cidade carismática, repleta de história a cada esquina (e o que não faltam são esquinas). Para os Gondoleiros é uma mina de oiro. Para os donos dos restaurantes é um paraíso. E para mim? Bom para mim foi, em iguais partes, a cidade plana com mais degraus onde já tive e o triângulo das Bermudas, se o triângulo das Bermudas fosse na lagoa de Veneto e apenas fizesse desaparecer o dinheiro da minha carteira.

Um aviso para os que consideram visitar Veneza. Lá irão encontrar cerca de 392 pontes, mais ou menos umas quantas. Todas as pontes representam uns quantos degraus para subir e, normalmente, o mesmo número para descer. Pensem nisto quando estiverem a planear quantas malas devem levar.

Visto isto, preparem-se para andar perdidos. Dar uma volta ao quarteirão não vai resultar como é de esperar. O mais provável é atingir o estado normal naquela terra, que é andar perdido, principalmente se não quiserem dar parte fraca e voltar pelo caminho de onde vieram. 

No final do dia, andar perdido é do melhor que se pode fazer. Por campos, calles, foundamentos e salizadas. Por ruas estreitas e outras ainda mais estreitas. Sempre pela sombra dos prédios, apenas vendo o Sol quando em campos e praças largas ou nas margens do Grand Canal. É a melhor forma de conhecer a cidade.

E claro, é de beber um Spritz. Recomenda-se um de manhã, outro à tarde e um à noite. No entretanto se houver razão para tal, ou mesmo não havendo, não se acanhem de tomar mais um ou três. Dizer que o Spritz é uma das maravilhas de Veneza não é exagerar, é ser modesto em relação ao pequeno cocktail.