Alguém, uma vez disse: "Os artistas devem exprimir-se pelo seu meio, seja pintura, fotografia ou outro" - e rematou com "Se alguns dos artistas que passaram por aqui escrevessem, minha nossa.".

Por alguma razão estas frases ficaram comigo.

O fotógrafo é fotógrafo e não poeta por alguma razão. Cada autor exprimir-se-á na sua linguagem de eleição. Um texto produzido por artistas da palavra será, à partida, mais digno que um produzido por um artista de outra linguagem. Consoante a natureza do trabalho, um texto produzido por uma terceira parte, não só fará sentido, como enriquecerá a obra.

Por outro lado, a audiência procura, muitas vezes, a validação da sua interpretação da obra. Isto é, em iguais partes, inevitável e absurdo. Sendo certo que conhecer a intenção do artista transforma a nossa percepção, não só do significado, mas também do valor da obra, num plano de usufruto puro, não é necessário esse conhecimento. Essa validação só poderá existir através das palavras do autor. A obra transmite o que o leitor estiver preparado para entender. Quanto mais abstracta for a obra, possivelmente maior será a veracidade da afirmação anterior. Será assim tão importante o autor "martelar" a sua intenção na sua audiência? Será importante a audiência conseguir a tão desejada validação do seu entendimento?

Ainda por outro lado, tudo isto cheira a vaidade. Como se não fosse mais do que uma caça pelo escritor mais conceituado, mais exclusivo que se possa obter. Uma forma barata de conferir credibilidade ao trabalho por via da proximidade de algo mais real. Mas, e o que acontece aos textos menos abonatórios? Quando os artistas das palavras não conferem a genialidade ao trabalho fotográfico de igual proporção à que os seus frágeis egos necessitam? Ou quando os escritores não "entendem" o que o artista queria transmitir? Aparentemente arranja-se outro escritor.

Toda a obra tem de ter mil referências. Entre poesia, pintura, música, e claro, fotografia, é proibido publicar um texto, que não identifique múltiplas referências a autores do passado, a obras firmadas, movimentos estéticos, coisas e cenas. Parece embaraçoso assumir a ideia pela ideia, a originalidade como inspiração, a vontade que nasce em nós para criar. Entristece que um honesto "sei lá", um realista "tinha esta ideia guardada na gaveta à tanto tempo, que já nem me lembro como nasceu" ou mesmo um universal "porque me apeteceu" tenha desaparecido do cimo da terra.

Usando a minha parca, quase inexistente, insignificante, experiência na matéria, já publiquei com texto próprio, com texto de terceiros e sem (con)texto algum. Continuo longe da resposta.

Quanto às imagens de hoje, estava aborrecido, gosto de fotografar árvores, principalmente quando estou chateado com a vida. Como sou leigo, inculto e a dever ao talento, assumo isto. Um dia faço um livro com as fotografias de árvores. Talvez das árvores e dos poste de alta tensão. Quanto aos textos, peço a alguém para os escrever, mas com a condição destes serem perceptíveis por quem não possui cursos em História da Arte e Mestria da Ofuscação da Palavra. 








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