Aqui na aldeia há uma estrada que vai daqui para ali, passa pelos outros sítios e termina na saída. Essa estrada é muito movimentada. Quer dizer, tão movimentada quanto uma estrada na aldeia pode ser.

Essa estrada é a escolha da família sempre que é necessário viajar até à capital, ou seja, todos os dias. É directa, curta e fiável. É uma estrada confortável. Já lá estava quando me mudei para a aldeia, acredito que lá continue quando me for embora.

Um dia nessa fiel companheira apareceu uma enorme vala. Começou por ser enorme, mas rapidamente se tornou gigante. Engalfinhou a pequena estrada de uma ponta à outra. Vala essa criada por motivos por mim desconhecidos, mas que sem dúvida foram feitos pelo homem. Os dias passaram, as chuvas vieram e a pequena estrada, confortável, confiável, rapidamente se tornou intransitável.

Numa tentativa de resolver o tema, não deixar marcas que se vissem, uma lavagem de face foi expressamente aplicada. Um novo tapete cobriu a estrada. É como se nada tivesse acontecido. Não havia mácula ou cicatriz à mostra. Apenas uma cara sorridente, convidativa, como se a pedir o retorno à normalidade, ao conforto.

Mas será que depois de todas estas transformações que a nossa confortável estrada continua a mesma? Será que tem o mesmo para nos oferecer? Podemos voltar a depositar a nossa confiança nela?

A medo lá fomos retornando. Poucos de início, mas aos poucos tudo voltou ao normal. No entanto foi sol de pouca dura. Com poucas semanas de uso, todos os problemas voltaram, sem aviso e com força acrescida. Afundamentos e brechas brotaram por todo o lado. Sem aviso. Sem sinais. Sem aparente salvação.

Torna-se quase claustrofóbico. Sentir que não se tem opção de percurso, e o que há não serve, não é confiável, que apresenta demasiado risco. Mas na realidade essas opções existem, mas quando estamos confortáveis não reparamos nelas. Hoje tomamos um caminho diferente, estamos contentes com a nossa decisão, mas atentos. Se sinais de degradação aparecerem, não voltamos a cair no erro de manter o caminho.

Tal como a estrada da minha aldeia, a tal que vai daqui para ali, passa pelos outros sítios e que termina na saída, também outras tantas estradas se apresentam desta forma. Esta estrada não mostrou sinais de decadência, da mudança, ou talvez até o tenha feito, mas estávamos tão confortáveis com ela que nem reparámos. Não cometeremos o mesmo erro duas vezes.










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