Eu não tenho uma santa terrinha. Nascido em Lisboa e criado nos seus arredores, apenas gozei terrinhas emprestadas. A do pai, a da mãe e agora a da minha cara metade.

Mas nunca foram minhas. Os meus pais, como outros tantos da sua geração, repudiaram as suas terrinhas. Não tanto as suas origens, mais a geografia. O regresso fazia-se pela família, mas a partir do primeiro momento que se começava a preparar a partida de volta à cidade. Nunca senti que pertencesse a algum destes locais. Ainda passo por elas volta e meia, menos vezes que gostaria, muito menos, passam-se anos.

De certa forma tenho saudades, por vezes, mas raramente me faço à estrada. Muitas são as promessas, mas que facilmente são quebradas. Não sei porquê. Sei que me irei arrepender num futuro não muito longínquo.

Se tens uma terrinha, estima-a. Usa-a como âncora. Tira partido da sua quase impermeabilidade à mudança. Goza a antítese do século XXI. Valoriza o que de genuíno tem. Elogia as batatas e os tomates. Atura os velhos. Joga umas batotas. Bebe uns copos com os velhos. Bebe outros com os novos.

Perdoa as parolices, a falta de rede para o telemóvel, o frio, o calor, o vento, o café queimado, a água das pedras quente, as cadeiras que já eram velhas quando o meu pai era novo, a coscuvilhice da Ti Maria, as pomadas que nos servem, e tudo mais. Porque amanhã vai deixar de haver. Os velhos vão morrer, os novos não vão lá ficar.

A cidade é estéril. É feia, desconfiada, desonesta, mentirosa, cínica, falsa.  Pouco se partilha. Não há um abraço, já quase que nem um  aperto de mão decente. O bom vizinho é o que não chateia. Amigo longe da vista desaparece. O  esfrega-esfrega do Metro acaba por ser o principal contacto humano de muitos dias. E acima de tudo, já não se joga uma sueca como deve de ser.

Gostava de ter tido uma terrinha.










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