Imagine-se um dia solarengo. São as primeiras horas da manhã (ou meio da tarde se fores adverso a acordar cedo) e a vila ainda não acordou. Uma gentil brisa ajuda a amenizar o quente abraço do Sol. Estás numa esplanada a saborear o café da manhã, ou chá, ou leite, ou <inserir bebida de eleição>.

Passa um cheiro a pão acabado de cozer. Chega o teu pedido. Está tudo na perfeição. O café, ou chá, ou leite, ou <inserir bebida de eleição> está servido à temperatura ideal, na chávena, copo ou caneca perfeita. O pão está cozido ao ponto que tu adoras. Até a fruta que decidiste arriscar e pedir desta vez, combina na perfeição com o teu pedido habitual.

A pessoa que  atende é rápida, cordial e simpática. Aponta tudo o que pedes, não arrisca. É uma pessoa bem disposta. Uma raridade nos dias de hoje.

Voltas com gosto no dia seguinte. E no outro, e outro, e ainda mais outro.

Imagine-se um dia solarengo. São as primeiras horas da manhã (ou meio da tarde se fores adverso a acordar cedo) e a vila ainda não acordou. Uma gentil brisa ajuda a amenizar o quente abraço do Sol. Estás numa esplanada a saborear o café da manhã, ou chá, ou leite, ou <inserir bebida de eleição>.

Passa um cheiro a pão acabado de cozer. Chega o teu pedido. De início não entendes o que se passa. Onde está o pão que cheira maravilhosamente bem? Porque te serviram pão que sobrou do dia anterior? O café está queimado, o chá frio, o leite azedo, a <inserir bebida de eleição> está intragável. Até a fruta está verde e amarga.

Chamas a pessoa que te atende. Longe vai a simpática e atenciosa pessoa a que te habituaste. A pessoa é a mesma, o trato é que não. Questionas-te sobre o que terá alterado. Foste inconveniente? Insultaste a pessoa sem saberes? Não foste generoso com as grojetas? Tudo tem uma razão, mesmo que não a conheças. Decides tentar falar com esta pessoa que sempre te tratou da melhor forma.

"O que se passa consigo? O que se passa com a casa? " - perguntas.

Não recebes resposta.

Pedes desculpa por aquilo que não sabes o que é.

Não recebes resposta.

Tentas o diálogo novamente.

Não recebes resposta.

Dás um murro na mesa e mudas o tons de voz.

Não recebes resposta.

Pagas e sais com urgência. Não mereces este trato. Não compreendes esta mudança. Ninguém se dignificou a falar contigo, mesmo depois das tuas insistências. A tua lealdade como cliente tem sido eximia, o teu comportamento exemplar. Respeito e consideração são estradas de dois sentidos, mas só vês trânsito num deles. A casa, a pessoa que te atende, são apenas sombras daquilo que, possivelmente, nunca o foram na realidade. Lamentas e segues em frente.

Quão rápido mudam as coisas.

Não te apetece voltar.

Não voltas.














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