5:50
À chegada passas por um homem que olha para ti, meio inquisidor meio irritado, como quem pensa "Isto hoje começa cedo, que é que estes andam aqui a fazer".
Acenas com a cabeça e segues em frente.

6:00
Sais do carro, pegas na mochila e no tripé.
És imediatamente atacado por mosquitos do tamanho de tâmaras.
Tens um flashback para a noite anterior, altura que estavas a preparar o equipamento, quando tiveste o repelente não mão e pensaste que não valia a pena.
Praticas a velha arte de esmurrar e pontapear o ar freneticamente, enquanto proferes impropérios direccionados aos mosquitos e suas famílias, numa tentativa dos afastar.
Falhas redondamente.

6:10
Continuas à procura da tua primeira imagem.
O Sol ainda não se mostrou.
Perguntas-te o que é que te passou pela cabeça para ires de calções e tshirt, ao nascer do sol, para um local com tamanha população de mosquitos.
Já só sonhas com Fenistil.

6:20
Descobres a primeira imagem que queres fazer.
Abres o tripé e montas a máquina.
Tentas compor e focar, mas ao invés apenas aprendes que sem luz, focar uma máquina com 60 anos, é quase impossível.
Dizes mal da tua vida.
Continuas a insultar os mosquitos.
Lembraste que a lanterna do telemóvel te pode ajudar.
A ideia é boa, é suficiente para focares, mas também alerta o resto da comunidade de mosquitos para a tua presença.
Mais 10 minutos disto e és mestre do Karaté aéreo anti-mosquito.

6:25
Finalmente enquadraste e focaste.
Agora vem a aventura do fotómetro.
Rapidamente desistes, pois nem consegues ver a escala, quando mais a medição. Aquelas coisas não foram feitas para funcionar com tão pouca luz.
Que se lixe, pensas, começa já a exposição e quando houver luz suficiente ajustas.

6:40
O Sol começou a espreitar pelo horizonte. Como já tens luz, ajustas a exposição.
Só mais dois minutos pensas.
Entretanto os outros já passaram por ti 20 vezes, loucos com as possibilidades fotográficas.
Fizeste 1 imagem.

7:00
Agora tens luz.
Já consegues fotografar em segundos ao invés de largos minutos.
Mas já estiveste aqui várias vezes. Não te apetece fotografar mais barcos e pontões.
Experimentas coisas novas, não tens ideia se vão resultar ou não, mas experimentas.

7:30
Chega alguém.
Vai até à primeira escavadora, e começa a trabalhar.
Continuamos a fotografar.

7:45
Vibra o telemóvel. Atingiste o objectivo de passos para hoje. 10.000.
Acabaste o primeiro rolo.
Estás a ficar com fome, afinal já lá vão umas horas desde aquele café para acordar às 4:30.
Começas o caminho de volta.

8:00
Encontras-te com os outros e sentas-te na esplanada.
Ouves pela décima vez a piada "mostra lá como ficaram as tuas imagens".
Respondes com o habitual "ficaram um bocado escuras".
Começam as conversas fotográficas. Lembras-te que já tinhas saudades destas conversas. Aproveitas.

8:15
Queres tomar o pequeno almoço.
O café só abre às 8:30.

8:30
Chega a torrada e galão claro e morno.
A vida é boa novamente.







Copyright © Rui Pedro Esteves 2018 Direitos Reservados

Sem comentários: