O desconfortável conforto de visitares uma terra que não é a tua aumenta ao passar dos anos. 

Primeiro vais porque os pais vão. Depois ganhas o direito ao voto, mas vais na mesma, porque os pais vão. Passam-se os anos e começas a não ir. Agora a família alargou e há mais terras a visitar, as férias não dão para tudo e outras desculpas que tais. Depois vêm os casamentos, baptizados e funerais. Vais porque tens de ir. Chega o tempo em que vais porque tens saudades dos dias passados, das pessoas que ainda resistem, dos sítios que te dizem qualquer coisa. Um dia deixarás de ir.

Na casa dos avós ainda mora família. Ainda há galinhas e vinho verde tinto na malga. Ainda és recebido de braços abertos. Nada se passa em Fonte Coberta. Os dias são iguais. Deliciosamente iguais, desesperadamente iguais.

A figueira já ardeu, hoje não está lá nada. O carvalho já tinha ardido quando eras puto, mas hoje as raízes, onde brincavas com carrinhos, já não existem. O galinheiro está noutro sitio e acabaram-se as vacas, os porcos e os coelhos. Já não te lembras da última vez que viste o carro de bois do avô, mas lembras-te de andar lá em cima à estonteante velocidade de quase parado, monte acima, até aos campos mais recônditos.

Quando eras miúdo não ligavas nada a isso. Era uma chatice ires à aldeia, deixares os teus brinquedos e livros de banda desenhada para trás. Até gostavas de passar pela Batalha e chateavas toda a gente para parar. Hoje tens pena de não ter desfrutado mais. O George tinha razão quando dizia que a juventude é desperdiçada nos jovens.

Com tanta mudança é incrível como tudo parece igual. Ainda acordas com as galinhas em grande algazarra com o nascer do dia. Continuas a comer uma deliciosa carne estufada com massa. A água da nascente continua a ser de uma frescura inacreditável, mesmo nos dias mais tórridos de Verão. A memória ajuda a amenizar as mudanças. Aquilo que não tens certeza o teu cérebro encarrega-se de te convencer que sempre foi assim.

Fica a promessa de voltares para o ano. Mas sabes que o mais provável é passarem alguns anos até que voltes.












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