Generalizando, e correndo o risco de ser altamente injusto para muita gente, a fotografia de paisagem é uma seca.

Já tentaste ler livros repletos de fotos altamente paradisíacas e espectacularmente executadas? Ou ir a uma exposição sobre o significado do bocejo matinal pré-pequeno almoço, ou qualquer coisa parva deste tipo, cheio de pores-do-sol lindíssimos e  montanhas saídas de qualquer filme de Hollywood?

Ao fim de meia dúzia de lindíssimas imagens, tecnicamente executadas na perfeição, postais de propaganda turística, é difícil não largar um bocejo ou vinte. É nesta altura que se instala o sentimento de déjà-vu. Cada nova fotografia alimenta uma mescla de imagens que se fundem em algo indistinguível. Um borrão de laranja, azul e verde.

Quantas vezes conseguimos ver pôr-do-sol atrás de pôr-do-sol, cascata atrás de cascata, montanha com neblina atrás de montanha com neblina, antes de adormecermos? Será a fotografia de paisagem a menos original de todas as categorias de fotografia?

Então porque será que tantos enchem as mochilas de cameras, objectivas, filtros, tripés, etc? Quilos e quilos de maquinaria e plástico do chinês vendido ao preço do oiro. Água, comida, calçado adequado, impermeável (caso chova), gps e tudo mais. E com tudo isto, marcam o despertador para horas indignas só para ficarem no meio do monte horas a fio à espera da luz certa?

Porque é divertido. Porque é um dia bem passado, mesmo que não se consiga uma única imagem. Porque é uma comunhão com a Natureza. Porque é um desafio. Porque é o nosso momento.

Não sendo eu um fotógrafo de paisagem (nem sequer fotógrafo segundo algumas definições neo-snobistas que por ai andam), não consigo evitar ficar enamorado com este tipo de fotografia. Acima de tudo é uma experiência. Algo diferente do meu dia-a-dia enterrado em selvas de cimento, rodeado de cadeiras e ecrans, pessoas, stress e políticas ordinárias.

Mas esquece os romantismos baratos de forum de internet. Vais gastar muita sola, suar muito a camisola, andar perdido por esses montes fora, ser comido vivo por tudo o que é mosquito e os seus amigos. Vão-te doer partes do corpo que não sabias que estavam lá. É um pouco como ir ao ginásio, mas menos parvo.

Quanto mais esforço para obter a imagem, maior a satisfação que temos em a conseguir. Quase que poderíamos descrever estas imagens em quilómetros caminhados, bolhas ganhas nos pés, tempo passado dentro de água ou camadas de fenistil colocadas. Mas que relação tem isto com a qualidade das imagens? Nenhuma. As imagens podem ser uma porcaria, mas para nós são fantásticas.


Ps: As minhas desculpas ao excelentíssimo sr. Michael Kenna, que trabalha a paisagem natural como ninguém.

Ps2: Aceitam-se sugestões para locais a explorar neste Inverno.
Ps3: Aceita-se companhia para explorar esses locais neste Inverno.









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