Hoje é um daqueles dias. Tu sabes. Daqueles que diz muito a muita gente, mas pouco ou nada a ti. Daqueles em que tudo está ao contrário, mas tu não entendes porquê. Não que te coloques num pedestal superior, mas porque simplesmente não compreendes.

Hoje é um daqueles dias.

São poucas as caras com quem me cruzo no comboio. Há lugar para todos. Seria de achar que estas almas, por terem de cumprir mais um dia de rotina enquanto a maioria fica no quentinho mais umas horas, não trouxesse a felicidade na cara. Mas a realidade é diferente. Não estamos no Natal. Não há familía à nossa espera, doces para preparar, a casa para limpar. Hoje quem se cruza comigo no comboio leva consigo um invulgar sorriso na cara. Aparentemente a falta de tantas outras caras familiares, companheiras dos movimentos pendulares diário, não acarreta consigo saudade, mas alegria. Há espaço. Há silêncio. E isso basta para que o dia comece bem.

Hoje está frio.

Não é o pior que tenho apanhado, mas faz-se notar. Entre gorros e cachecóis, luvas e casacos, escondem-se os sorrisos. Mas eles estão lá. Sentem-se. Acredito que nem todos sorriam pela mesma razão. Hoje nem tapo os ouvidos com barulho para que me possa abstrair da vida da vizinha, da música do camarada da frente e dos suspiros atravessam a carruagem.

Adoro estes dias em que a cidade é quase toda para mim. Está deserta. A população prepara-se para celebrar um evento sobre o qual não têm qualquer participação ou influência. É o fim de um ciclo. Daqui por umas horas é a loucura. Festejos, brindes, passas e promessas. Mas até lá  é o dia mais tranquilo na capital. Confesso que não entendo esta energia que se liberta neste dia. Nada mudará amanhã. Continuaremos a ser carrancudos, teimosos, racistas, misóginos, generosos, simpáticos, afáveis, ou seja lá o que somos hoje.

Hoje estou sozinho.

Mas para já nada disso importa. Tenho as minhas obrigações a fazer. Perco as vergonhas de fotografar perto do trabalho. Afinal de contas, quem está aqui para me julgar? Tiro a barriga da miséria. Tenho 2 rolos comigo. Era suposto ser um, mas pelo sim, pelo não, trouxe mais um. Ao fim de três passadeiras deixo de fotografar. A este ritmo não chego ao trabalho. E qual é o problema? Nenhum. Só cá estou eu. Não é por fotografar mais uma passadeira que cai o Carmo e a Trindade. Só me apetece fotografar trivialidades. Ao final das contas, é isso de que o meu dia é feito.

Chego ainda antes da hora. Afinal não havia razão para tanta preocupação. Cumprimento a senhora da recepção. Nunca trocamos mais do que um bom dia / boa tarde, mas recebe-me sempre de sorriso. Como a compreendo. No meu mundinho, são inúmeras as caras com que permeiam os mesmos corredores que frequento que desconhecem tais palavras. Fazem-nos sentir insignificantes. Subo ao meu piso. Estou sozinho.

Hoje há silêncio.

As horas passam a correr. Não sei bem o que fiz, mas sei que fiquei em dia com os meus afazeres. Foi produtivo. Foi pacifico. Está quase na hora dos festejos. Não me apetece. Quero estar com a minha mulher, jantar com ela, perguntar como foi o seu dia. Não me importa o resto do mundo.

Saio de rompante porque temos de ir daqui para ali, para depois ainda ir ao outro sitio e finalmente ao destino final. Chegamos antes da hora marcada. A minha mulher diz que sou alemão, só porque gosto de cumprir horários. Já me chamaram pior. Não queria vir, mas gosto de cá estar. Tenho poucos amigos, mas gosto muito de falar com os que tenho. Foi a melhor parte do dia. Rever estas pessoas. Continuo a fotografar.

Hoje é dia de gin.

A noite avança, conheço pessoas novas. Falamos de trivialidades. Bebo mais uns gins. Quase nunca bebo, mas para passar muito tempo com outras pessoas é quase uma inevitabilidade. Rimos, contamos piadas de adultos de forma a que as crianças não entendam, bebemos mais uns gins. Fazemos girafas e patos e barcos com as peças do puzzle. Afinal de contas as crianças também precisam de atenção.

Hoje conheci pessoas novas que não voltarei a ver.

Este dia aproxima-se do final. Preparamos as passas, o espumante, olhamos para o relógio. O que passou na cabeça de cada um, ficou para si. No meu caso foi só "Não podia ser outra coisa? Passas é um bocado sem graça". Batem as 12 badaladas. Brindes, sorrisos, beijos e abraços. Toca o telefone. A mãe nunca falha. A energia de todos está a começar a acabar. As crianças já desistiram de esperar pelos adultos e já se vão adiantando na terra do João Pestana. Chegam as conversas mais sérias, talvez porque tenha acabado o gin, não sei.

Chegamos ao nosso limite, foi bom, mas está a hora de voltar para casa. Cansados. Contentes. Satisfeitos.

Hoje foi um daqueles dias. Tive a cidade quase só para mim. Trabalhei em paz, convivi com amigos. Comi e bebi. Fotografei.

Mas qual o significado deste dia?. Não mudei, nem prometi mudanças. Não aprendi mais do que noutro dia. Não impactei positivamente a vida de alguém. Parece que afinal foi só mais um dia.

Hoje já não é hoje, é amanhã.




























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